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Pedro Gomes

DESIGUALDADES EM TEMPO DE NATAL

Pedro Gomes

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O recente Relatório Mundial da Desigualdade (World Inequality Report) para 2018, elaborado por um conjunto de economistas ligados à Paris School of Economics, revela um aumento da desigualdade à escala mundial, confirmando as tendências já evidenciadas por outros estudos.

Desde 1980, a desigualdade social tem aumentado na América do Norte, na Índia, na Rússia e na China, apesar do elevado crescimento económico deste país.

Um por cento da população mais rica acumula mais do dobro da riqueza de metade da população mais pobre do mundo, o que revela a enorme desproporção na geração e detenção da riqueza.

Uma pequena percentagem da população está cada vez mais rica, enquanto uma grande parte está cada vez mais pobre.

Em países dos continentes mais pobres, há pessoas a viverem com menos de dois dólares por dia, no limiar da pobreza extrema.

A globalização da economia, dos negócios e do comércio gerou mais riqueza, mas trouxe uma pesada factura: o aumento da desigualdade.

O mundo está mais rico, mas menos igual.

Não há justiça social, nem igualdade de oportunidades, quando a economia nos torna mais desiguais, aumentando a exclusão social, diminuindo o acesso a simples bens de primeira necessidade, condenando gerações sucessivas à servidão da pobreza.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evagelii Gaudium, denuncia a economia da desigualdade, dizendo: “assim como o mandamento “não matar” põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigual¬dade social. Esta economia mata” (53).

A economia que mata, mata devagar, sem a rapidez da devastação da guerra, mas não causa menos mortos. Mata pessoas, empresas, cidades, regiões ou até países, subjugados por dívidas impagáveis e literalmente à mercê dos seus credores.

Até mesmo o espírito de Natal foi contaminado pela economia global.

Nem tudo pode estar perdido.

Acredito num mundo melhor, tal como John Lennon cantava em “Imagine”.

Um Santo Natal.

Pedro Gomes
22DEZ2017 – 105 FM

Pedro Gomes

EM NOME DA LIBERDADE

Pedro Gomes

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A obra de Alexis de Tocqueville (1805-1859) é essencial para a compreensão do fenómeno democrático e útil para percebermos os Estados Unidos da América e o seu sistema democrático.

Tocqueville soube contrapor ao determinismo político e ao fatalismo os ideais de liberdade, de autonomia individual e de livre escolha.

A América construi-se com base nestes fundamentos, rejeitando a colonização inglesa e aceitando de braços abertos homens e mulheres vindos de todo o mundo, à procura do sonho americano, forjado no mito da fronteira.
Qualquer um, independentemente das suas origens socias, pode aspirar a desempenhar os mais importantes cargos ou funções na vida empresarial ou na sociedade americana.

É pela liberdade que as sociedades democráticas se afirmam. Como escreveu Tocqueville, “quem procura na liberdade outra coisa diferente dela mesma, é porque está feito para servir“.

Convoco Tocquivelle para falar de Therese Patricia Okoumou.

O nome desta mulher de 44 anos, natural da República Democrática do Congo não dirá nada à maioria das pessoas.
No dia 4 de Julho, data em que os Estados Unidos da América celebram a independência, Therese subiu à Estátua da Liberdade em protesto contra a nova política da Administração Trump que permite a separação de famílias de imigrantes nas fronteiras norte-americanas.

Aos pés da icónica escultura, como quem implora liberdade, esta mulher fez ouvir a voz silenciosa do seu gesto, pedindo ao Presidente Donald Trump uma alteração das últimas medidas que tornam cada vez mais difícil a entrada de imigrantes nos Estados Unidos, tornando este país numa fortaleza.

A Estátua da Liberdade, símbolo de acolhimento americano a milhões de imigrantes aos longo dos anos – incluindo milhares de açorianos que escolheram a América para começarem uma nova vida – transformou-se na testemunha silenciosa dum gesto que obriga a uma reflexão sobre a dureza das novas políticas americanas de controlo da imigração, muito para além daquilo que seria necessário ou desejável.

A liberdade só é mesmo liberdade se permitir que todos sejamos iguais em direitos e dignidade.

Pedro Gomes
6JUL2018 – 105 FM

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Pedro Gomes

O VERÃO À SOLTA

Pedro Gomes

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O tempo de Verão está aí. Com ele, as conversas e as roupas tornam-se mais leves.

O mar chama por nós, mesmo para um mergulho ao final do dia. Quem vive em ilhas tem o privilégio de poder olhar o mar e decidir ir ao seu encontro. Muitas vezes, basta apenas atravessar a rua, em direcção ao azul infinito.

A imprensa, minguada de acontecimentos políticos, debate o Mundial de futebol, numa escalada de informação que terminará com o jogo final. Depois disso, surgem os temas leves – da moda às férias – para encher páginas ou minutos de informação, com uma outra actualidade que, no Inverno, não ocuparia a atenção dos editores.

O Verão não é apenas uma estação meteorológica: é um estado de alma.

O tempo de Verão deixa-nos mais descontraídos, mais soltos nas conversas e nos gestos. Os churrascos de Verão, os jantares de amigos, as festas que pontuam os calendários destes meses, fazem de nós seres mais sociáveis, menos contraídos.

As conversas prolongam-se nas noites cálidas, em que não corre uma aragem e as palavras resgatam o silêncio. Tornamo-nos como Xerazade: a história não tem fim, pois cada história sugere uma outra história que não nos cansamos de dizer e reinventar. Cada vez que contamos a história, ela torna-se diferente, com novos e sumptuosos detalhes que provocam comoção, um sorriso ou uma gargalhada aberta, daquelas que sabem a desejo.

O tempo anda mais depressa nas noites de Verão. Há uma sensação de velocidade que nos atinge. Tão depressa a noite está a começar, como já acabou, sem que o corpo dê por isso ou os sentidos se manifestem. As noites de Verão contrabalançam os relógios da vida, aqueles que registam as obrigações na agenda, os compromissos socias ou as rotinas que nos esmagam, nos transformam em robôs, fazendo-nos perder um pouco da nossa humanidade.

Nas cidades, já perdemos o hábito de olhar o céu, deslumbrados com as luzes artificiais que marcam os caminhos que podemos seguir.

Os dias límpidos de Verão convidam à descoberta do céu e da gramática das estrelas.

Faz bem à alma contar estrelas e sacudir a poeira dos dias até os garajaus anunciarem o regresso da alba, porque o “sol perguntou à lua quando havia amanhecer”.

Pedro Gomes
29JUN2018 – 105 FM

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Pedro Gomes

SEMPRE LIGADOS

Pedro Gomes

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Um dos sinais dos nossos tempos é que estamos sempre ligados. Uns aos outros. Aos amigos e a uma multidão de desconhecidos, em cujas publicações colocamos um like, como marca de intimidade.

Através do computador ou do smartphone, com ume-mail, um tweet ou uma publicação no Instagram, no Facebook ou no Watsapp, tornámo-nos criaturas cibernéticas. A pulsão de estarmos ligados é permanente: no trabalho ou em casa, no cinema ou na cama, as manifestações desta conectividade planetária são avassaladoras.

Como sucede com todas as dependências, também com esta queremos sempre mais tempo on-line, melhor cobertura da rede, mais tempo para publicarmos ou viajarmos pelas publicações de outros.

Esta nova forma de comunicação desenvolveu em nós uma outra forma de “inscrição digital” que construiu uma nova realidade social. As fronteiras das relações sociais sofreram uma profunda alteração, motivadas pelo desejo: de ver e de ser visto, comentado. O desejo de não estar sozinho, rompendo a enorme solidão social que as cidades tecem.

Todas as publicações nas redes socias ou os e-mails que recebemos parecem exigir de nós uma resposta: uma mensagem escrita, o envio duma imagem, a devolução dum comentário ou um simples like.

Estamos sempre mobilizados, para utilizar a expressão do filósofo italiano, MurizioFerraris, que analisa este fenómeno num ensaio intitulado “Mobilização Total”, no qual escreve que a “web é um instrumento de registo antes de ser um instrumento de comunicação”.

A extensão desta mobilização gera, também, novos fenómenos no mundo laboral, em que a permanente ligação dos empregados aos e-mails e telemóveis das entidades laborais exige uma disponibilidade permanente, que comprime a vida social e o direito ao descanso e repouso, levando ao burnout. Há ordenamentos jurídicos europeus em que já se discute um novo direito dos trabalhadores – o direito a estar desligado.

Curiosamente, esta comunicação moderna não se fica apenas pelos elementos gráficos ou pelas fotos, mas exigem palavras. A comunicação global fez renascer a comunicação escrita. São precisas palavras para escrever um comentário no Facebook ou um tweet, a que outros respondem com novos comentários.

A morte da escrita, trocada pela oralidade, que alguns filósofos anunciaram como sinal da modernidade, afinal não aconteceu.

Comunicamos muito, mas ainda falamos muito pouco.

Pedro Gomes
22JUN2018 – 105 FM

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